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Investir em Tesouro Direto é seguro? Os riscos de verdade (e os falsos)

Calote do governo não é o risco que deve te preocupar. Marcação a mercado e vender no susto, sim. O que cada título faz, quanto custa de verdade (com a isenção de custódia que pouca gente conhece) e como eu uso o Tesouro na minha carteira.

Investir em Tesouro Direto é seguro? Os riscos de verdade (e os falsos)

Sim, o Tesouro Direto é o investimento com o emissor mais seguro do Brasil: o governo federal, que emite dívida na moeda que ele mesmo controla. Se você veio só atrás dessa resposta, é essa.

Mas "emissor seguro" não é a mesma coisa que "impossível perder dinheiro". Existe um risco real nos títulos, a marcação a mercado, e um risco ainda maior que ninguém coloca no título do texto: você mesmo, vendendo na hora errada. Este guia explica os dois, sem número congelado (as taxas do dia estão linkadas ao longo do texto).

Por que o emissor é o mais seguro do país

Quem compra um título do Tesouro empresta dinheiro para o governo federal. Diferente de um banco (que pode quebrar) ou de uma empresa (idem), o governo emite dívida na própria moeda. É por isso que título público nem precisa da proteção do FGC que cobre os CDBs: a garantia é o próprio Tesouro Nacional.

Isso não torna o país imune a crise. Torna o calote da dívida interna o último dos cenários, atrás de qualquer banco ou empresa. Se o seu critério é risco de crédito, não existe degrau acima no Brasil.

O risco real: marcação a mercado

O preço dos títulos é reajustado todo dia útil conforme as expectativas de juros. A regra de bolso é uma gangorra: expectativa de juros para cima, preço do título para baixo. Juros para baixo, preço para cima. E quanto mais LONGO o vencimento, mais forte o balanço.

A conta exata, feita pelo nosso simulador : num título de 20 anos, 1 ponto percentual de alta na taxa derruba o preço em cerca de 17%. O mesmo movimento ao contrário gera ganho ainda maior. Quem viveu 2021 viu isso na prática: a Selic saiu de 2% para 9,25% no ano e os títulos longos sofreram quedas expressivas de preço no caminho. Os gráficos completos dessa mecânica estão no guia visual de marcação a mercado .

O detalhe que muda tudo: essa perda só se realiza se você vender antes do vencimento. Levando até o fim, você recebe exatamente a taxa contratada na compra, independente do que o preço fez no meio.

A marcação tem duas faces (e a segunda quase ninguém conta)

A mesma gangorra que derruba o preço quando os juros sobem também o levanta quando os juros caem. É aqui que o título longo deixa de ser só "risco" e vira estratégia.

Falo por experiência: montei minha posição de Tesouro IPCA+ aproveitando uma janela de taxa em máxima histórica. Com o juro real contratado lá em cima, eu fico com as duas opções na mão: se as taxas caírem, posso vender antes e realizar o ganho da marcação; se não caírem, levo até o vencimento e recebo a taxa alta que travei. O caminho decide. É uma estratégia de volatilidade alta, que exige estômago para ver o saldo balançar e só funciona com dinheiro que não tem data para ser usado.

Para quem está começando, a lição não é "faça isso". É entender que o balanço do preço não é defeito do produto: é o mecanismo. Quem conhece o mecanismo escolhe de que lado da gangorra quer estar. Quem não conhece, vê o saldo cair 10%, vende no susto e transforma oscilação em prejuízo de verdade. Esse é o risco comportamental, e ele mora no investidor, não no título.

Os três títulos e para que cada um serve

  • Tesouro Selic: acompanha a taxa básica dia a dia, quase não sofre marcação e tem liquidez diária. É o título de reserva de emergência. Quanto rende com a taxa de hoje, líquido, você vê no comparador .
  • Tesouro Prefixado: taxa travada na compra. Bom quando você quer certeza nominal numa data (a taxa do dia está no site oficial do Tesouro, fonte abaixo). Sofre marcação forte nos vencimentos longos.
  • Tesouro IPCA+: paga a inflação ( IPCA ) mais uma taxa fixa, ou seja, juro real contratado. É o título de longo prazo por excelência, o mais sensível à gangorra nos vencimentos distantes, e o que eu uso na parte de inflação da minha carteira, junto com ETF de renda fixa (os dois convivem, com papéis diferentes).

Quanto custa de verdade

  • Custódia da B3: 0,20% ao ano, com uma isenção que pouca gente conhece: Tesouro Selic não paga custódia sobre os primeiros R$ 10 mil. Quando programei o comparador deste site, precisei implementar essa regra na conta: só o que excede R$ 10 mil paga a taxa. Para uma reserva pequena, o custo é zero.
  • Corretagem: a maioria das corretoras cobra zero para Tesouro Direto. Se a sua cobra, troque.
  • Imposto de renda: tabela regressiva sobre o rendimento, de 22,5% a 15% conforme o prazo. A mecânica completa está no guia de renda fixa .

Como começar

  1. Abra conta numa corretora regulada que não cobre corretagem de Tesouro Direto.
  2. Comece pelo Tesouro Selic com o valor que você tem: o mínimo é na casa dos R$ 30.
  3. Antes de comprar prefixado ou IPCA+, responda uma pergunta: "esse dinheiro tem data para ser usado?". Se tem, case o vencimento com a data ou fique no Selic. Se não tem, você pode até usar a gangorra a seu favor, como expliquei acima, sabendo do balanço.
  4. Confira as taxas do dia só na fonte oficial (site do Tesouro Direto, abaixo). Promessa de rendimento acima disso em "título público" é golpe.

O essencial

Título público é o chão de segurança de crédito do investidor brasileiro. O preço balança no caminho, e esse balanço é risco para quem vende no susto e oportunidade para quem trava taxa alta de propósito. A decisão que resolve os dois casos é tomada ANTES da compra: casar o título com o prazo e saber por que você está comprando. Reserva no Selic, longo prazo no IPCA+, e a comparação com CDB e poupança, com as taxas de hoje, no comparador .

Fontes e referências

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