Uma hora acontece: você abre o extrato e o seu Tesouro IPCA+ vale 10% menos do que semana passada. Você não vendeu nada, não errou nada, e mesmo assim o saldo encolheu. "Perdi dinheiro?"
Provavelmente não. O que você viu é a marcação a mercado, e ela cabe numa frase: o preço do seu título anda na direção contrária da taxa de juros. Este guia mostra isso em 3 gráficos, todos gerados com a mesma matemática exata do nosso simulador de marcação a mercado . No fim, você testa com os seus números.
A gangorra: taxa sobe, preço cai
Por que o preço cai quando a taxa sobe? Pense no que você tem na mão: um papel que promete R$ 1.000 lá na frente. Se hoje os papéis novos prometem os mesmos R$ 1.000 pagando taxa MAIOR, ninguém compra o seu papel antigo pelo preço antigo. Ele só sai com desconto. Esse desconto é a queda do preço.
Olhe os números do gráfico: num título de 20 anos comprado com taxa de 7%, a taxa caindo para 5% faz o preço subir 45,8%. Subindo para 9%, o preço despenca 30,9%. Nenhum desses movimentos mudou o que o título paga no vencimento. Só mudou o preço de HOJE.
O tempo puxa tudo de volta
Aqui está a parte que acalma, e que quase nenhum texto mostra: aconteça o que acontecer com a taxa no meio do caminho, o preço converge para o valor de face na data do vencimento. É matemática, não esperança: no vencimento, o título paga o que prometeu.
O investidor da linha cinza viu o saldo cair no ano 2 e, se não vendeu, terminou recebendo exatamente o combinado. O da linha bronze viu o saldo saltar e pôde escolher: vender com lucro ou seguir até o fim. É por isso que a pergunta certa diante de uma queda não é "quanto perdi?", é "esse dinheiro tem data para ser usado?".
O prazo é o volume da gangorra
O mesmo choque de taxa bate diferente conforme o prazo restante. Um ponto percentual a mais derruba 1,8% num título de 2 anos e quase 25% num de 30 anos:
A regra prática: prazo longo = gangorra forte. É por isso que o Tesouro Selic quase não balança (prazo efetivo curtíssimo, taxa pós-fixada) e um IPCA+ 2045 balança como bolsa em dia de nervoso.
Risco para uns, estratégia para outros
Até aqui falamos da marcação como algo que acontece COM você. Mas quem entende a gangorra pode usá-la de propósito.
Eu faço isso na minha carteira: montei posição de Tesouro IPCA+ longo numa janela de taxa em máxima histórica. Com juro real alto contratado, fico com duas saídas boas: se a taxa cair, o preço sobe forte (é a barra de 20 anos do gráfico acima, ao contrário) e eu posso vender realizando o ganho; se não cair, levo até o vencimento recebendo a taxa que travei. O caminho decide.
O custo dessa estratégia é psicológico: aceitar ver o saldo variar dois dígitos sem mexer. Não é para o dinheiro da reserva, não é para quem perde o sono, e não é recomendação: é o raciocínio que eu uso, documentado em público, para você entender o mecanismo por trás.
Simule com os seus números
Os três gráficos deste guia saem da mesma conta exata (preço = valor de face dividido por (1+taxa) elevado ao prazo), sem regra de bolso. Essa conta está viva no simulador de marcação a mercado : coloque sua taxa de compra, o prazo restante e arraste a taxa de mercado para ver sua posição balançar, com a tabela de choques de ±0,5 a ±2 pontos.
Se você quer o contexto completo dos títulos antes, o caminho é o guia investir em Tesouro Direto é seguro? , e a explicação de por que a taxa se move mora no guia da taxa de juros no Brasil .
O essencial
Marcação a mercado é a gangorra entre taxa e preço. Ela só vira perda ou ganho DE VERDADE para quem vende antes do vencimento; para quem leva até o fim, o combinado é o combinado. O prazo controla a força do balanço, e quem sabe disso escolhe o lado: prazo curto para dormir tranquilo, prazo longo para quem quer usar a gangorra como estratégia e aguenta o sobe e desce. Antes de decidir qualquer coisa, simule .