Juros compostos são juros calculados sobre o total acumulado, não só sobre o valor inicial. A cada período, o rendimento entra na base e passa a render também. Daí o apelido: juros sobre juros.
Um exemplo mínimo: R$ 1.000 a 1% ao mês viram R$ 1.126,83 em 12 meses. Com juros simples, seriam R$ 1.120,00. Diferença de R$ 6,83 em um ano inteiro.
Parece bobagem, e essa é a pegadinha. O composto quase não aparece no começo; ele precisa de tempo.
Eu construí a calculadora de juros compostos deste site, e a matemática dela tem teste unitário verificado contra a fórmula fechada. Todos os números deste guia saem dessa mesma conta. Vou mostrar como calcular, como simular com aportes mensais e duas coisas que os artigos de fórmula costumam pular: o erro de conversão de taxa que infla resultados e o composto que corre contra você nas dívidas.
A fórmula sem mistério
M = C × (1 + i)^t
M é o montante final, C é o capital que você aplicou, i é a taxa por período e t é o número de períodos. Regra única: i e t precisam estar na mesma unidade. Taxa mensal pede prazo em meses, taxa anual pede prazo em anos.
Refazendo o exemplo da abertura: 1.000 × (1,01)^12 = R$ 1.126,83.
O expoente é o que muda o jogo. Em 12 meses, composto e simples quase empatam. Em 120 meses, os mesmos R$ 1.000 a 1% ao mês viram R$ 3.300,39 no composto e R$ 2.200,00 no simples. O tempo, aqui, não soma: multiplica.
Uso 1% ao mês e 12% ao ano nos exemplos porque são números redondos, na ordem de grandeza da renda fixa brasileira atual. A taxa de verdade muda o tempo todo: antes de simular com números seus, confira a Selic de hoje e o CDI de hoje .
O erro clássico: dividir a taxa anual por 12
12% ao ano não é 1% ao mês. Parece, mas não é.
A conversão correta é geométrica: taxa mensal = (1 + taxa anual)^(1/12) - 1. Para 12% ao ano, isso dá 0,9489% ao mês. A divisão por 12 dá 1%, e a diferença soa ridícula, uns 0,05 ponto percentual.
Só que o composto amplifica erro com o mesmo entusiasmo com que amplifica juro. R$ 500 por mês durante 20 anos, a 12% ao ano: a conta certa termina em R$ 455.605,53. Com o atalho da divisão por 12, a planilha promete R$ 494.627,68. São R$ 39.022,15 que não existem, um resultado 8,6% inflado.
É um erro comum em planilha caseira e em calculadora de internet. A calculadora daqui converte pela equivalência composta, mostra a taxa equivalente com quatro casas decimais e tem teste automatizado cobrindo exatamente esse comportamento.
O outro vício dos exemplos por aí é a taxa de fantasia. Tem material no topo da busca ensinando juros compostos com 3% ao mês. Composto, isso dá cerca de 42,6% ao ano, e nenhum produto de renda fixa acessível paga nada perto disso hoje (julho de 2026). O gráfico fica lindo; a intuição sai calibrada errada.
Trabalho há uma década com growth marketing e tecnologia, e projeção bonita demais me deixa desconfiado por padrão. Por isso a calculadora daqui mostra a convenção da conta na tela, não só o número final.
Como o Brasil conta juros na prática: a base 252
Selic e CDI são cotados em percentual ao ano numa convenção de 252 dias úteis. A taxa diária compõe dia útil sobre dia útil, 252 vezes por ano, e não 12 vezes em meses corridos.
Para quem investe, a tradução é simples. O número anual que você vê já embute essa capitalização diária, e um CDB atrelado ao CDI rende um pouquinho a cada dia útil (e nada em fim de semana e feriado). As páginas de Selic e CDI daqui atualizam 4 vezes ao dia com as séries oficiais do Banco Central.
Simule com aportes mensais: é aí que o jogo muda
A fórmula fechada com aportes existe, mas é feia e ninguém precisa dela no dia a dia. Simular resolve.
O caso que uso como teste unitário da calculadora: R$ 1.000 iniciais mais R$ 100 por mês, a 1% ao mês, durante 12 meses. Resultado: R$ 2.395,08. Desse total, R$ 2.200,00 saíram do seu bolso e R$ 195,08 são juros.
Uma convenção que importa: na nossa calculadora, o aporte entra no fim de cada mês. Se você refizer a conta em outra ferramenta e o número não bater, quase sempre o motivo é esse. A Calculadora do Cidadão, do Banco Central, faz simulação com depósitos regulares e serve de contraprova pública da nossa matemática.
E a régua longa: com os valores padrão da calculadora (R$ 1.000 iniciais, R$ 100 por mês, 12% ao ano) e o prazo esticado para 11 anos, os juros acumulados só ultrapassam o dinheiro aportado no mês 125, pouco depois do décimo ano. Até lá, quem carrega o crescimento é o seu aporte. Depois, os juros assumem a frente.
Na minha carteira, o composto aparece de dois jeitos. O ETF de renda fixa reinveste os juros dentro do próprio fundo, sem eu fazer nada. Nos FIIs é diferente: o provento cai na conta e reinvestir é decisão minha, mês a mês. Composto manual, por assim dizer.
Chegou aqui com um valor na cabeça? A página quanto rende responde "quanto rende R$ X hoje" com as taxas do dia.
O que a fórmula não conta: imposto e inflação
A simulação é bruta. O extrato real desconta duas coisas.
Imposto de renda. Em CDB, Tesouro Direto e afins vale a tabela regressiva da Lei 11.033/2004: 22,5% sobre o rendimento até 180 dias, 20% de 181 a 360 dias, 17,5% de 361 a 720 dias e 15% acima de 720 dias. O imposto incide só sobre o rendimento, no resgate ou no vencimento.
LCI e LCA continuam isentas de IR para pessoa física; a MP que ameaçava mudar isso caducou, e contei essa história aqui . Para comparar produto tributado com produto isento, use a calculadora CDB x LCI x LCA .
Inflação. Render 1% ao mês com inflação de 1% ao mês é correr na esteira: muito esforço, lugar nenhum. O que interessa é o juro real, acima do IPCA .
Foi essa conta que me levou ao Tesouro IPCA+ de vencimento longo: juro composto acima da inflação por décadas. Comprei numa janela de taxa em máxima histórica sabendo das duas saídas possíveis, vender antes com ganho de marcação ou levar até o vencimento. A mecânica está no guia visual de marcação a mercado e a estratégia no guia do IPCA+ longo .
E a poupança? Rende juros compostos, sim, mês a mês. A regra vem da Lei 12.703/2012: com a meta Selic acima de 8,5% ao ano, a poupança rende 0,5% ao mês mais TR; igual ou abaixo disso, 70% da Selic mais TR.
Em 14/07/2026 a Selic está acima do gatilho, então vale o 0,5% mais TR. O valor vigente fica na página da poupança , e a comparação com CDB e Tesouro coloca os três destinos lado a lado.
Juros compostos contra você
A parte que os textos de "mágica dos juros compostos" pulam: a mesma fórmula roda no rotativo do cartão e no cheque especial, no sentido contrário.
Existe até uma curiosidade legal aqui. A Lei da Usura (Decreto 22.626/1933) proíbe cobrar juros sobre juros em período menor que um ano. Só que a MP 2.170-36/2001 abriu exceção para instituições financeiras, e é ela que dá respaldo legal ao banco para compor a sua dívida mês a mês.
Lembra dos 3% ao mês que chamei de fantasia como rendimento? Como custo de dívida, o efeito é rápido: uma dívida compondo 3% ao mês dobra em cerca de 24 meses (1,03 elevado a 24 dá 2,03). Não vou cravar aqui a taxa do rotativo porque ela muda todo mês; o dado oficial do momento está nas estatísticas de crédito do Banco Central.
Um critério simples é comparar velocidades: a taxa da dívida contra a taxa que o dinheiro renderia investido. Quando a dívida compõe mais rápido (e dívida rotativa costuma compor bem mais rápido que renda fixa), quitá-la vem antes de qualquer aporte.
Perguntas rápidas
Quanto rende R$ 1.000 por mês?
Depende da taxa do dia, e ela muda. Monte a simulação na calculadora de juros compostos com o CDI atual , ou veja a resposta pronta, já com as taxas de hoje, na página quanto rende .
Poupança rende juros compostos?
Rende, mês a mês, pela regra da Lei 12.703/2012 explicada acima. O valor vigente está na página da poupança .
Juros simples ainda existem?
No papel, sim. No dia a dia do investidor brasileiro o padrão é o composto: renda fixa compõe na base 252, poupança compõe mês a mês e dívida bancária idem.
O essencial
Juros compostos são juros sobre o acumulado, e o insumo que os faz funcionar é tempo, não taxa milagrosa. A conversão de taxa anual para mensal é geométrica, nunca divisão por 12: em 20 anos de aportes, esse atalho inventa quase R$ 40 mil que não existem. Selic e CDI compõem em 252 dias úteis, o IR regressivo e a inflação comem parte do resultado, e a mesma matemática corre contra você no rotativo, com a bênção da MP 2.170-36. Simule com a taxa de hoje na calculadora de juros compostos : a conta é aberta e testada, e qualquer número deste texto você reproduz nela em um minuto.
*Este texto e a calculadora são educacionais: as simulações não consideram impostos, taxas ou inflação (exceto onde indicado) e nada aqui é recomendação de investimento.*